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Coronavírus

Postada em 23/05/2020 ás 10h36

Publicada por: Liliane Alves

Fonte: O Tempo

Brasil passa de 21 mil mortes e torna-se epicentro da Covid-19 no mundo
País registrou mais de 10 mil mortes por Covid-19 em apenas doze dias, e tem 2,5 vezes mais óbitos que os 12 países da América do Sul somados.
Brasil passa de 21 mil mortes e torna-se epicentro da Covid-19 no mundo

Foto: Reprodução

A América do Sul é o novo epicentro da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).E a maior preocupação é com o Brasil, que soma 2,5 vezes mais mortes por Covid-19 do que o somatório dos outros 12 países do continente sul-americano. São 21.048 mortes no país, enquanto 8.328 morreram nos demais, e a curva no Brasil é ascendente.

Em apenas 12 dias, no intervalo entre 9 de 21 de maio, o Brasil registrou mais de 10 mil mortes. Há muita preocupação em torno desses países, mas, claramente, o mais afetado no momento é o Brasil", declarou o responsável por situações de emergência da OMS, Michael Ryan, em teleconferência desde Genebra.

Nessa semana o país ultrapassou a marca de 1.000 mortes registradas por dia, tendo repetido o feito trágico em três dias (terça, quinta e sexta). 

Porém, segundo especialistas, o alarmante número tende ainda a crescer até o final de julho, o que faz com que este, como eles classificaram, seja o maior desastre humanitário da história brasileira. 

É o que lamenta Unai Tupinambás, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro dos comitês de enfrentamento Covid-19 da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e da UFMG. Segundo o especialista, devido à atual curva de crescimento do número de casos, o país terá nesta a pior catástrofe sanitária de sua história.

“Ao observarmos os números, vemos que esta será a pior catástrofe sanitária de todos os tempos do Brasil. Ainda está na curva ascendente e não podemos falar que chegamos ao teto. Só será possível falar em teto quando o Brasil estabilizar sua curva e essa começar a cair, e não é o que estamos vendo. E, infelizmente, se aumenta o número de casos, aumenta o número de óbitos. Caminhamos para ter um número recorde de dados no mundo”, lamentou Tupinambás. 

Segundo o epidemiologista, um dos fatores que tende a piorar a situação é o avanço de casos no interior do país e nas comunidades mais carentes, onde o acesso aos centros de saúde é mais escasso. 

“Vemos também que a pandemia está penetrando no interior, onde o sistema de saúde é ainda mais precário. Isso tudo pode impactar negativamente nos números. Não tenho dúvida de que quando a pandemia entrar nas comunidades mais carentes e no interior, isso pode causar uma grande tragédia humanitária. Estamos caminhando para isso”, completou Tupinambás.

Recorde diário pode tornar-se absoluto devido aos conflitos internos

Ainda que estejamos atrás em número absoluto de óbitos em relação aos Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Espanha e França, o recorde de mortes registradas em solo brasileiro preocupa Tupinambás devido às divergências internas no governo federal, principalmente no Ministério da Saúde. Segundo ele, a falta de uma política central de controle massivo da propagação do vírus e a defesa do presidente da República, Jair Bolsonaro, de colocar a economia do país à frente da saúde, podem fazer do país “campeão de casos e mortes”. 

“Não precisaríamos passar por essa crise. Não é um momento para relaxar, mesmo considerando as várias epidemias diferentes que temos no Brasil. Essa falta de coordenação única no Ministério da Saúde não tenho dúvida que impactou negativamente no controle do avanço. Isso vai gerar uma crise sem proporções e vejo que estamos ainda no início desse processo”, avalia Tupinambás, que completa dizendo que “temos uma falta de coordenação central, pois cada um faz à sua revelia, sem consenso.

Além disso, o presidente reforça a necessidade de terminar o isolamento, o que está impactando nos casos e óbitos. Estamos caminhando, a passos largos, para sermos campeões mundiais de casos e mortes pela Covid”.

A opinião é corroborada por  Danilo Bretas de Oliveira, virologista da Faculdade de Medicina da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Segundo ele, o país optou por uma crise política para enfrentar a crise, o que deverá deixar os tristes números em curva ascendente por bastante tempo.

“Temos um serviço de saúde pública que é referência no mundo. Porém, ele precisa estar articulado para o enfrentamento da Covid, o que não vemos. Por isso, ao ver a curva de crescimento e as políticas adotadas, acho que devemos ser o país que será o epicentro do mundo. Devemos ter um número maior que mil mortes diárias por um longo período de tempo”, apontou Bretas de Oliveira.

Isso, segundo o virologista, foi crucial para que o Brasil tivesse mais mortes do que a América do Sul inteira somada. Para Danilo, nosso continente teve tempo de se preparar para a guerra contra o coronavírus, mas nos movimentamos de forma errada.

“As Américas tiveram tempo de ‘aprender’ como erradicar o vírus com a Ásia e Europa, porém o Brasil escolheu entrar em crise política ao invés de implementar as medidas da Organização Mundial da Saúde (OMS), as quais já eram baseadas em uma série de informações científicas geradas à partir das experiências da Ásia e Europa”, pontuou.

Solução passa por testes em massa e isolamento mais rígido, mas distinto para cada região

Segundo Bretas de Oliveira, o momento agora é de admitir o cenário caótico e agir para evitar ainda mais mortes. Para ele, o aumento massivo de testes e avaliação específica de cada região são essenciais para conter ainda mais o avanço da Covid-19.

“Não adianta negar o fato. Temos que aumentar a testagem para saber a real situação. Testar sintomáticos com síndrome gripal e testar em massa por amostragem a população. Assim, teríamos dados para gestão do grau de distanciamento, já que temos uma situação heterogênea no Brasil. Assim que for analisado, saberemos o grau das medidas que poderemos tomar”, aponta o virologista, que completou citando que até mesmo os Estados Unidos, atual epicentro de casos, tomou medidas visando o achatamento da curva. “Basta ver que os Estados Unidos, assim que identificou os surtos em epicentros locais, tomou várias medidas para que eles não se espalhasse para o restante do país. Isso explica a curva em queda”, completou.

A opinião é corroborada pelo epidemiologista da UFMG Unai Tupinambás. Para ele, é necessário aumentar as medidas de isolamento e os testes em massa. 

“Como podemos frear essa curva? Com medidas de isolamento, disseminação do uso de máscara e distribuição dos benefícios de renda mínima. Isso tudo pode ajudar demais. Temos de testar mais a população. Quanto mais a testo, mais identifico, e a isolo. Com essas medidas, reduzo a propagação do vírus. Não vimos nenhuma dessas medidas em prática. Quando a vimos, foi colocada forma errática, o que gerou esses números”, concluiu.

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