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Com vocação para turismo de aventura, Brasil subaproveita potencial

Para especialistas, país precisa melhorar infraestrutura e divulgação

Por: Redação Fala Piauí Fonte: Agência Brasil
27/09/2023 às 08h25

Com 8,5 mil quilômetros de faixa litorânea, clima tropical e condições favoráveis à prática de atividades ao ar livre o ano todo, o Brasil tem potencial para estimular o turismo de aventura, que, junto com o ecoturismo, compõe o turismo de natureza.É o que defendem especialistas ouvidos pelaAgência Brasilno Dia Mundial do Turismo, celebrado nesta quarta-feira (27). Eles sustentam que, para isso, contudo, o país precisa aprimorar a infraestrutura receptiva, garantindo segurança e bem-estar aos visitantes, e investir mais na divulgação de seus atrativos naturais.

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Presidente da Associação Brasileira das Empresas de Turismo de Aventura (Abeta), Vinicius Viegas, diz ser testemunha do crescente interesse do público em geral pelo turismo de natureza. Mesmo assim, a exemplo de outros entrevistados, ele considera que o Brasil não aproveita todas as possibilidades que o segmento oferece.

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“Este aumento ainda está muito aquém do nosso potencial. Não é fruto de uma estratégia de divulgação das várias atividades que um turista pode experimentar ao visitar o país. Quando se trata do turismo esportivo, o interesse estrangeiro está muito mais associado à evolução, à visibilidade que cada esporte conquistou junto a seus praticantes”, pondera Viegas, montanhista e dono de uma agência de viagens especializada no segmento.

Ele cita o exemplo da chamada Rota das Emoções, que interliga Ceará, Piauí e Maranhão. “Hoje, kitesurfistas do mundo inteiro sonham em um dia conhecer e velejar pela região”, acrescenta, ao destacara forte concorrência entre os principais destinos turísticos globais.

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“Neste setor, o sucesso depende de uma conjunção de fatores. Convenhamos, montanhas, cachoeiras e florestas dos mais diversos tipos existem em todo o mundo. Por isso é preciso transmitir segurança e investir mais na divulgação. Porque tirando alguns destinos clássicos que quase todo esportista gostaria de conhecer, como o Havaí para um surfista, a escolha de um destino de viagem envolve vários aspectos, como segurança pública, infraestrutura de transporte, acomodações, custos, alimentação. Tudo pesa. Até as dificuldades com o idioma.”

“Não há o que discutir quanto à potencialidade e à imensa vocação do Brasil para o turismo esportivo e de aventura, mas ainda é necessário um trabalho integrado, estratégico, que apresente o Brasil desta forma no exterior”, concorda a coordenadora de Turismo do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Ana Clevia Guerreiro.

“O Brasil é um país sensacional em termos de possibilidades para as atividades ligadas ao turismo de aventura e esportivo. Infelizmente, este potencial ainda não é bem aproveitado e o tema é pouco explorado pelo Poder Público, pelo mercado e no âmbito acadêmico”, acrescenta o diretor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Ricci Uvinha, especialista em lazer e turismo.

Secretária do Turismo do Ceará, Yrwana Albuquerque Guerra diz que o país ainda é "uma criancinha dentro deste segmento tão lucrativo"."Precisamos nos assumir como um país propício para a prática de esportes de ação e de ecoturismo e divulgar isso para o mundo", defende.

O Ceará é frequentemente apontado como exemplo de promoção do potencial de atração turística dos esportes de ação, como okitesurf.

Esportes de aventura

Atletas como a sete vezes campeã mundial Mikaili Sol (CE), o tetracampeão Carlos Mário “Bebê” (CE) e a tricampeã Bruna Kajiya (SP) ajudaram a propagar entre praticantes dokitea informação de que o Brasil, especialmente o litoral nordestino, é um local privilegiado para a prática do esporte, com condições propícias durante quase todo o ano.

Outro esporte de aventura com potencial para projetar no exterior a vocação brasileira é o surfe. Entre 2014 e 2023 , quatro surfistas brasileiros – Gabriel Medina (SP), Adriano de Souza “Mineirinho” (SP), Ítalo Ferreira (RN) e Filipe Toledo (SP) – faturaram sete dos nove títulos de campeões mundiais disputados no período, conquistando fãs do esporte em todo o mundo.

Só Medina tem mais de 11 milhões de seguidores em uma popular rede social. Ferreira, que em 2021 voltou a fazer história, tornando-se o primeiro campeão olímpico da modalidade , tem 2,8 milhões. O potiguar também estrelou um programa de sucesso em um canal por assinatura no qual ajudou a divulgar as belezas e a qualidade das ondas de sua cidade natal, Baía Formosa, para um público que não se restringia ao do surfe.

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A consagração desses e de outros brasileiros nos esportes de ação, como o hexacampeão mundial debodyboardingGuilherme Tâmega e dos skatistas medalhistas olímpicos Kelvin Hoefler e Rayssa Leal, gerou bastante publicidade positiva para o Brasil. O que não foi suficiente para atrair ao país um maior número de estrangeiros interessados em conhecer as condições em que nossos campeões mundiais foram formados.

Público-alvo

O turismo de aventura/esportivo é um segmento bastante lucrativo, movimentando cifras bilionárias ao redor do planeta. Segundo a Organização Mundial de Turismo (OMT), antes do reconhecimento do caráter pandêmico da covid-19 , em 2019, o turismo convencional crescia a uma taxa média anual de 7,5%. Já o turismo de aventura chegou a registrar expansão de 20%.

Recentemente, a Grand View Research, multinacional especialista em consultoria e pesquisas de mercado, apontou que, em 2021, mesmo com as restrições às viagens em razão da pandemia, o mercado global de turismo de aventura tinha potencial para movimentar algo em torno de US$ 282,1 bilhões, com uma perspectiva de se expandir cerca de 15% ao ano entre 2022 e 2030.

Como aponta a secretária Yrwana Albuquerque Guerra, o Brasil ainda dá passos tímidos neste segmento – refletindo o que ocorre com a indústria turística nacional em geral. Em 2019, o país recebeu, ao todo, pouco mais de 6,35 milhões de turistas estrangeiros. Com isso, ficou de fora da lista de 50 maiores países receptores turísticos. Comparativamente, a França, que ocupa o primeiro lugar dorankingda OMT, recebeu 89 milhões de estrangeiros – ou 14 vezes mais viajantes, embora tenha menos da metade do tamanho do estado do Amazonas.

Segundo dados do Ministério do Turismo , de todos os estrangeiros que desembarcaram em território brasileiro ao longo de 2019, 18,6% afirmaram ter viajado com o propósito de ter contato com a natureza e praticar atividades ligadas ao turismo de aventura e ao ecoturismo. Outros 2,4% vieram fazer turismo esportivo.

Com parte da população global vacinada e a disseminação do coronavírus sob controle, o turismo internacional vem se recuperando, embora ainda não tenha retornado a patamares pré-pandemia. Entre janeiro e agosto deste ano, o Brasil recebeu pouco mais de 4,02 milhões de turistas vindos de outros países – o que já é mais que todo o resultado de 2022 (pouco mais de 3,63 milhões). Além disso, segundo o Banco Central, nos sete primeiros meses do ano, os turistas internacionais injetaram US$ 3,796 bilhões na economia brasileira. Não há, contudo, uma estimativa de quantos destes visitantes vieram ao país fazer turismo de aventura/esportivo.

Visibilidade

Responsável por divulgar, no exterior, os atrativos turísticos brasileiros, a Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) planeja investir mais para tentar atrair turistas esportivos e de aventura ao país. Algumas ações já estão em curso, como destaca o coordenador de Natureza e Segmentos Especiais da agência, Leonardo Persi.

“Pretendemos estar presentes em eventos nacionais e internacionais e voltar a divulgar a marca Brasil [entre esportistas e público estrangeiro]”, explica Persi, citando, como exemplo, a Cúpula Mundial de Viagens de Aventura, que a principal entidade representativa das empresas de ecoturismo do planeta, a Adventure Travel Trade Association (ATTA), realizou este mês, no Japão. E também o XP Sertões Kitesurf, maior corrida de longa duração dokitesurf, que reuniu, no Ceará, este mês, competidores do Reino Unido, da França, Turquia, de Portugal, da Suíça, República Dominicana e Argentina, além de brasileiros de vários estados.

“[O XP Sertões Kitesurf] está conectado com o Brasil que a Embratur promove para o mundo. O Brasil das belezas naturais, do turismo de aventura que é sustentável e gera emprego e renda nas nossas cidades e vilarejos litorâneos. Por isso, trouxemos jornalistas estrangeiros para conhecer de perto e consolidar este evento que a cada ano cresce e ganha importância no calendário esportivo internacional”, apontou o presidente da Embratur, Marcelo Freixo, em nota divulgada poucos dias antes do início da corrida.

“Também planejamos nos aproximar de atletas de renome, jornalistas e influenciadores digitais para dar mais visibilidade aos destinos de aventura existentes no país”, garante Persi, retomando o debate sobre o motivo de o Brasil, com tantos campeões mundiais em diferentes modalidades esportivas, não atrair mais praticantes de esportes de ação.

“Óbvio que atletas como o [ciclista] Henrique Avancini, a multiatleta Karina Oliani e outros que carregam a marca Brasil mundo afora têm, de fato, potencial para dinamizar a venda da prática de atividades de aventura no país. Só que não basta termos o nome de um grande atleta brasileiro para atrair o público [estrangeiro] se ele chegar [ao país] e não houver uma estrutura minimamente adequada para atendê-lo. Temos que estruturar os serviços agregados ao atendimento”, reforça Persi.

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