A Polícia Rodoviária Federal (PRF) concluiu o laudo pericial da colisão que matou duas mulheres e feriu duas crianças na noite de 7 de outubro deste ano, na BR-316, Zona Sul de Teresina. Segundo a polícia, o motorista Stanlley Gabryell, namorado do influenciador Lokinho, mudou bruscamente de faixa e atropelou os pedestres. Conforme a polícia, a atitude comprova o dolo eventual e negligência na direção.
Para o delegado Carlos César, titular da Delegacia de Repressão aos Crimes de Trânsito (DRCT), o laudo da PRF é mais uma “prova contundente” do dolo eventual na direção - ou seja, ele assumiu o risco do ato cometido e suas prováveis consequências.
Conforme o inspetor Isaías Segundo, da PRF, a perícia fez uma análise no local do acidente e nos vídeos coletados para determinar a dinâmica do atropelamento. Na mudança de faixa, o carro passou da esquerda para a direita sem nenhum elemento à frente que forçasse a manobra.
“Os pedestres estavam no bordo da pista, fazendo o trajeto na contramão do fluxo, de forma correta, preconizada pela legislação de trânsito, quando foram atropelados”, afirmou o inspetor.
O inspetor disse ainda que o teste do bafômetro demorou a ser feito devido ao tumulto que se formou após o acidente. Em meio à confusão, o mecânico Tiago Henrique do Nascimento, de 38 anos, que havia descido de seu veículo para tentar ajudar as vítimas, foi baleado e morto.
Quando o teste pôde finalmente ser realizado, a concentração de álcool no corpo de Stanlley era de 0,04 mg/L, o que não indica um nível de infração ou crime de trânsito. Com base nisso, a polícia não pôde afirmar categoricamente que ele dirigia sob efeito de álcool.
O delegado Carlos César acrescentou que, além do laudo da PRF e do emitido pelo Instituto de Criminalística (Icrim), a Polícia Civil do Piauí (PCPI) está fazendo uma perícia audiovisual de outros vídeos para estimar a velocidade em que o veículo vinha.
"Temos vários vídeos passando por perícia audiovisual para estimar se o carro estava acima de 60 km/h, a máxima regulamentada para a rodovia”, acrescentou o delegado.
O delegado apontou que a mudança de faixa sem necessidade demonstra uma “direção sem objetividade e com negligência”. Ele relembrou que Stanlley Gabryell não tinha habilitação para dirigir, assim como Lokinho, e assumiu o risco de causar o acidente.
Indiciamento
A Polícia Civil indiciou, em 15 de outubro, o influencer Pedro Lopes Lima Neto, de 19 anos, conhecido como Lokinho, e seu namorado, Stanlley Gabryell Ferreira de Sousa, de 18 anos, pelo atropelamento que deixou duas pessoas mortas e uma criança ferida na BR-316, Zona Sul de Teresina. Segundo a Delegacia de Repressão a Crimes de Trânsito (DRCT):
As vítimas do acidente foram Marly Ribeiro da Silva, de 40 anos, que morreu em uma ambulância a caminho do Hospital de Urgência de Teresina (HUT), e Kassandra de Sousa Oliveira, que faleceu no local do acidente.
A filha de Kassandra, Maria Suely Oliveira Rocha, de 11 anos, está em coma e respirando por aparelhos, enquanto a irmã da garota, Maria Alice de Sousa Oliveira, de 2 anos, teve ferimentos leves e foi liberada do hospital.
Os dois suspeitos foram ouvidos em 15 de outubro pelo delegado Carlos Cesar Camelo, titular da Delegacia de Repressão a Crimes de Trânsito (DRCT), que encerrou o inquérito.
"Em meio as investigações coletamos alguns vídeos e essas imagens apresentaram algumas situações que mereciam esclarecimento por parte deles", explicou.
Segundo o delegado, era Stanlley quem estava dirigindo o carro, mesmo sem habilitação. Mas um dos vídeos obtidos pela Polícia mostrava tanto Stanlley como Pedro Lopes saindo pela porta do motorista após o acidente. Primeiro sai Stanley e, minutos depois, sai o Pedro.
Questionados sobre isso, os suspeitos disseram que o influencer estava no banco do carona, mas depois do atropelamento, passou para o banco do motorista, para manobrar o carro para fora da BR, já que estava no meio da pista.
Ainda segundo o delegado, outros vídeos que capturaram que o carro trafegava de forma estranha pela pista, antes do atropelamento. Sobre isso, os dois não conseguiram explicar o que houve.
"Outro vídeo mostra, a cerca de 50 metros antes do local do atropelamento, o veículo freando e mudando de faixa bruscamente, minutos antes do acidente. Queríamos saber se houve algum acontecimento dentro do carro que tivesse propiciado o crime. Nesse momento, os interrogados, disseram que não sabiam explicar, deram respostas meio vagas", afirma o delegado Carlos.
Stanlley foi preso ainda no dia do atropelamento, e Pedro Lopes foi preso no dia seguinte, mas por conta de uma investigação sobre divulgação de jogos de azar, no âmbito da segunda fase da Operação Jogo Sujo.
Na decisão que converteu a prisão em flagrante do suspeito em preventiva, o juiz Caio Cezar Carvalho de Araújo apontou que Stanlley sabia que dirigir sem carteira de habilitação é crime e, mesmo assim, resolveu assumir a direção do carro. Interrogado pela polícia, o jovem também teria dito que “foi tudo muito rápido” e “não havia nada que o fizesse desviar o veículo”.
“A declaração do autuado [...] demonstra que ele assumiu o risco de causar um acidente grave ao conduzir o veículo sob tais condições. Em juízo, Stanlley afirmou que não estava no celular e não gravava vídeos para suas redes sociais. Isso nos leva a crer que, possivelmente, o autuado tenha tentado assustar a família que caminhava próximo à pista, quando a atingiu em cheio”, escreveu o juiz. A Justiça acrescentou que o suspeito dirigia um veículo de médio/grande porte e mudou bruscamente de faixa, em alta velocidade, em direção às vítimas. Um vídeo de câmera de segurança registrou o momento exato em que ele atropela as mulheres e crianças na rodovia.
Assim, a Justiça reclassificou a conduta de homicídio culposo e lesão corporal culposa - quando não há intenção de matar - para homicídio doloso e lesão corporal dolosa - quando há intenção de matar.