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Os anos de ouro da “cena gay” em Picos

Paulo (nome fictício) de um personagem real que viveu de perto esse período, guarda na memória cada detalhe daqueles anos. “Era um gueto mesmo”, ele diz, “porque a gente só podia ser quem era ali naqueles lugares.”

Jucelma Sales
Por: Jucelma Sales Fonte: Ascom
24/03/2026 às 18h36
Os anos de ouro da “cena gay” em Picos
(Foto: Reprodução)

Entre 2010 e 2013, a cidade do interior do Piauí foi palco de uma cena gay discreta, corajosa e inesquecível, feita de festas improvisadas, caravanas de cidades vizinhas e um sentimento de pertencimento que mudou vidas

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Não havia espaço fixo. Os convites corriam de boca em boca, pelas redes sociais, para ver se confirmava gente suficiente para pagar o aluguel. Às vezes o chão era batido, o lugar escuro, a decoração improvisada. Mas era lá que uma geração de gays, lésbicas e travestis de Picos — e de boa parte do interior piauiense se encontravam e celebravam a diversidade com respeito.

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Paulo (nome fictício) de um personagem real que viveu de perto esse período, guarda na memória cada detalhe daqueles anos. “Era um gueto mesmo”, ele diz, “porque a gente só podia ser quem era ali naqueles lugares.”

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O despertar de uma cena

O movimento LGBT de Picos começou a ganhar visibilidade pública a partir da 1ª Parada da Igualdade, em 2007. Mas foi entre 2010 e 2013 que a cena ganhou corpo — e tensão.

“A sociedade ficava bastante atenta, era uma coisa nova, não se via esse tipo de vento na cidade”, lembra Paulo. O auge veio em 2013: trio elétrico, gogoboys interagindo com o público, uma proporção que a cidade nunca tinha visto.

As festas eram raras e, justamente por isso, carregadas. “As festas demoravam meses pra acontecer de uma pra outra, era o momento da gente comparecer pra extravasar, se reconhecer como sujeito LGBT, conhecer e se relacionar com os boys.” O DJ Tuk’s embarcou em várias dessas noites. A trilha era as divas pop da época: Lorena Simpson, Lady Gaga, Britney, Madonna, Cher.

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A Planet e a estrutura que faltava

A boate Planet, no Morro da Aerolândia, representou um salto. Pela primeira vez, havia estrutura de verdade: barzinho, palco para bate-cabelo, um ambiente que lembrava o que existia nas capitais.

“Até então todos os eventos que a gente comparecia eram em lugares insalubres, improvisados, decorados de qualquer jeito, até no chão batido, estacionamentos, chácaras em lugares escuros que a gente podia beber sem ninguém ver”, conta Paulo.

O alcance foi além de Picos. “Vinham caravanas de Floriano, Inhuma, Santa Cruz do Piauí, Fronteiras, Santana, de vários locais. Foi um marco na vida dos que compareceram.”

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O bar da Remedinha

A uma rua atrás da Câmara de Vereadores, o bar da Remedinha funcionava como ponto de encontro das minorias: gays, lésbicas, travestis, profissionais do sexo, michês. Pequeno, improvisado, mas tranquilo.

“Houve umas cinco festas no estabelecimento”, recorda Paulo. Sem glamour, mas com a função essencial de reunir quem não tinha outro lugar para estar.Coragem e medo lado a lado

Celebrar a própria identidade em público, numa cidade do interior do Piauí, tinha um preço. “Havia muita tensão em se expor, muita gente só conseguia se expressar e assumir que era gay ali naqueles espaços. No dia a dia, se passava por hetero.”

Paulo não esconde que o medo também era seu. “Eu comungava com muitos gays um medo permanente — tinha medo da reação na família, no trabalho. Mas com o tempo, quando a gente se torna independente, sai da casa dos pais, a gente perde esse medo.”

A população heterossexual, em grande parte, nem sabia que aquelas concentrações existiam. “Era um verdadeiro gueto.”A Parada da Igualdade

Picos realizou 14 edições da Parada da Igualdade, de 2007 a 2022. Para quem participava, era um ato de coragem pública.

“Era um momento de extrema coragem, de mostrar a cara, de não ligar pras pessoas. Era incômoda pros preconceituosos”, diz Paulo. “Ao tempo que escandalizava a sociedade, fazia as pessoas nos olharem como pessoas normais, que trabalhamos, pagamos nossos impostos.”

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O fim de um ciclo

A última parada foi em 2022. As festas se transformaram. Os espaços sumiram. Para Paulo, a mudança tem uma explicação simples: o mundo mudou.

“Hoje os gays frequentam as mesmas festas que os heteros. Não existe mais boate gay ou hetero, existem boates.” A inclusão chegou — mas, com ela, um certo esvaziamento da cena própria.

“As pessoas se tornaram mais conservadoras também. Não sei se hoje a parada gay em Picos mobilizaria tanta gente.”

O que ficou

Paulo não tem dúvida: aquele momento foi único e não vai se repetir. Mas deixou marca.“Fomos corajosos. Vai ficar na memória de todos que frequentaram naquela época.” E completa: “Éramos jovens, nem emprego tínhamos ainda, a gente juntava dinheiro ou pedia aos pais para irmos. Me sinto agradecido por ter vivenciado tudo isso.“​​​​​​​​​​​​​​​​

O legado, segundo ele, é visível em quem viveu aqueles anos: “Não temos mais medo de sermos quem somos. Criou um sentimento de pertencimento.“​​​​​​​​​​​​​​​​

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