Entre 2010 e 2013, a cidade do interior do Piauí foi palco de uma cena gay discreta, corajosa e inesquecível, feita de festas improvisadas, caravanas de cidades vizinhas e um sentimento de pertencimento que mudou vidas
Não havia espaço fixo. Os convites corriam de boca em boca, pelas redes sociais, para ver se confirmava gente suficiente para pagar o aluguel. Às vezes o chão era batido, o lugar escuro, a decoração improvisada. Mas era lá que uma geração de gays, lésbicas e travestis de Picos — e de boa parte do interior piauiense se encontravam e celebravam a diversidade com respeito.
Paulo (nome fictício) de um personagem real que viveu de perto esse período, guarda na memória cada detalhe daqueles anos. “Era um gueto mesmo”, ele diz, “porque a gente só podia ser quem era ali naqueles lugares.”
O despertar de uma cena
O movimento LGBT de Picos começou a ganhar visibilidade pública a partir da 1ª Parada da Igualdade, em 2007. Mas foi entre 2010 e 2013 que a cena ganhou corpo — e tensão.
“A sociedade ficava bastante atenta, era uma coisa nova, não se via esse tipo de vento na cidade”, lembra Paulo. O auge veio em 2013: trio elétrico, gogoboys interagindo com o público, uma proporção que a cidade nunca tinha visto.
As festas eram raras e, justamente por isso, carregadas. “As festas demoravam meses pra acontecer de uma pra outra, era o momento da gente comparecer pra extravasar, se reconhecer como sujeito LGBT, conhecer e se relacionar com os boys.” O DJ Tuk’s embarcou em várias dessas noites. A trilha era as divas pop da época: Lorena Simpson, Lady Gaga, Britney, Madonna, Cher.
A Planet e a estrutura que faltava
A boate Planet, no Morro da Aerolândia, representou um salto. Pela primeira vez, havia estrutura de verdade: barzinho, palco para bate-cabelo, um ambiente que lembrava o que existia nas capitais.
“Até então todos os eventos que a gente comparecia eram em lugares insalubres, improvisados, decorados de qualquer jeito, até no chão batido, estacionamentos, chácaras em lugares escuros que a gente podia beber sem ninguém ver”, conta Paulo.
O alcance foi além de Picos. “Vinham caravanas de Floriano, Inhuma, Santa Cruz do Piauí, Fronteiras, Santana, de vários locais. Foi um marco na vida dos que compareceram.”
O bar da Remedinha
A uma rua atrás da Câmara de Vereadores, o bar da Remedinha funcionava como ponto de encontro das minorias: gays, lésbicas, travestis, profissionais do sexo, michês. Pequeno, improvisado, mas tranquilo.
“Houve umas cinco festas no estabelecimento”, recorda Paulo. Sem glamour, mas com a função essencial de reunir quem não tinha outro lugar para estar.Coragem e medo lado a lado
Celebrar a própria identidade em público, numa cidade do interior do Piauí, tinha um preço. “Havia muita tensão em se expor, muita gente só conseguia se expressar e assumir que era gay ali naqueles espaços. No dia a dia, se passava por hetero.”
Paulo não esconde que o medo também era seu. “Eu comungava com muitos gays um medo permanente — tinha medo da reação na família, no trabalho. Mas com o tempo, quando a gente se torna independente, sai da casa dos pais, a gente perde esse medo.”
A população heterossexual, em grande parte, nem sabia que aquelas concentrações existiam. “Era um verdadeiro gueto.”A Parada da Igualdade
Picos realizou 14 edições da Parada da Igualdade, de 2007 a 2022. Para quem participava, era um ato de coragem pública.
“Era um momento de extrema coragem, de mostrar a cara, de não ligar pras pessoas. Era incômoda pros preconceituosos”, diz Paulo. “Ao tempo que escandalizava a sociedade, fazia as pessoas nos olharem como pessoas normais, que trabalhamos, pagamos nossos impostos.”
O fim de um ciclo
A última parada foi em 2022. As festas se transformaram. Os espaços sumiram. Para Paulo, a mudança tem uma explicação simples: o mundo mudou.
“Hoje os gays frequentam as mesmas festas que os heteros. Não existe mais boate gay ou hetero, existem boates.” A inclusão chegou — mas, com ela, um certo esvaziamento da cena própria.
“As pessoas se tornaram mais conservadoras também. Não sei se hoje a parada gay em Picos mobilizaria tanta gente.”
O que ficou
Paulo não tem dúvida: aquele momento foi único e não vai se repetir. Mas deixou marca.“Fomos corajosos. Vai ficar na memória de todos que frequentaram naquela época.” E completa: “Éramos jovens, nem emprego tínhamos ainda, a gente juntava dinheiro ou pedia aos pais para irmos. Me sinto agradecido por ter vivenciado tudo isso.“
O legado, segundo ele, é visível em quem viveu aqueles anos: “Não temos mais medo de sermos quem somos. Criou um sentimento de pertencimento.“