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“Cordel é resistência, memória e identidade”: Maria Ilza Bezerra celebra 25 anos dando voz às mulheres e eternizando a cultura popular

Há 25 anos, a literatura de cordel encontrou em Maria Ilza Bezerra uma das vozes mais atuantes do Piauí.

Jucelma Sales
Por: Jucelma Sales Fonte: Ascom
08/07/2026 às 09h32
“Cordel é resistência, memória e identidade”: Maria Ilza Bezerra celebra 25 anos dando voz às mulheres e eternizando a cultura popular
Maria Ilza Bezerra (Foto: Reprodução)

Nascida em Fronteiras e radicada em Picos, cordelista transformou uma brincadeira em sala de aula em uma carreira consolidada, conquistou espaço em academias de letras, coleciona premiações e faz da poesia um instrumento de resistência, memória e valorização das mulheres nordestinas.

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Há 25 anos, a literatura de cordel encontrou em Maria Ilza Bezerra uma das vozes mais atuantes do Piauí. Reconhecida nacionalmente por suas narrativas marcadas pelo protagonismo feminino, pela preservação da cultura popular e pela defesa do meio ambiente, a escritora construiu uma trajetória que une pesquisa, poesia e compromisso social.

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Natural de Fronteiras (PI), onde nasceu em 22 de dezembro, Maria Ilza foi alfabetizada pela própria mãe, uma costureira que despertou nela o amor pela leitura. Ainda criança, teve os primeiros contatos com os romances de cordel, lendo obras como Iracema e O Pavão Misterioso para os pais, vizinhos, idosos e crianças da comunidade. Foi também em uma roda de leitura de cordel que viveu seu primeiro namoro, experiência que reforçou ainda mais sua ligação com essa tradição literária.

Posteriormente, ampliou seu universo de leituras ao descobrir os grandes clássicos das literaturas brasileira, portuguesa e universal. Graduou-se em Letras – Português/Inglês e respectivas Literaturas, tornando-se especialista em Comunicação e Cultura, Ensino e Literatura Brasileira.

Hoje reside em Picos, município onde recebeu os títulos de Mulher Vitoriosa, Mulher Extraordinária e Mulher Pérola, reconhecimentos concedidos em razão de sua contribuição à cultura e à literatura.

A escritora ocupa a cadeira nº 28 da Academia de Letras da Região de Picos (ALERP) e a cadeira nº 23 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). Também integra o coletivo nacional Cordel das Rosas, formado por mulheres cordelistas brasileiras.

Entre suas principais obras estão narrativas como Maria das Tiras, Juanita das Sete Eiras, Os Fantasmas Secretos de Maria dos Anjos, Carisma Cordimariano de Maria Helena, Nísia Floresta – Entre Lutas e Controvérsias, Angelita e sua Cacimba de Beber, Felícia – A Princesa… e Bárbara de Alencar, além de diversos outros títulos que têm como marca principal personagens femininas fortes, nordestinas e de resistência.

Ao longo desses 25 anos de carreira, Maria Ilza consolidou seu nome no cenário literário nordestino como autora e expositora em algumas das principais feiras do livro do país. No Piauí, participa regularmente do Salão do Livro do Piauí (SALIPI), onde integra a programação da Arena Cordel, espaço que tem curadoria da cordelista Luzinete Fontenele, e da Feira da Literatura Piauiense (FELIPI), organizada pelo professor e ativista cultural Wellington Soares. Em 2024, ela recebeu uma das maiores distinções de sua trajetória ao ser escolhida como homenageada de honra da FELIPI, reconhecimento pelo conjunto de sua obra e pela contribuição à valorização da literatura popular.

Sua atuação também ultrapassou as fronteiras piauienses. No Ceará, tornou-se presença constante na Bienal Internacional do Livro do Ceará, participando da tradicional Praça do Cordel, coordenada pelo cordelista Klévisson Viana, além da Feira do Cordel Brasileiro, fortalecendo o intercâmbio entre escritores e leitores e ampliando o alcance da literatura de cordel produzida no Piauí.

Em entrevista especial ao portal, Maria Ilza revisitou sua trajetória, falou sobre preconceito, reconhecimento, literatura, cultura popular e revelou novos projetos.

Uma brincadeira que mudou sua vida

Ao recordar o início da carreira, Maria Ilza conta que nunca imaginou que uma atividade pedagógica se transformaria em profissão.

“Comecei como uma brincadeira em sala de aula, uma brincadeira que deu certo e se transformou em arte. Com o tempo descobri que contar histórias em cordel é um fazer terapêutico. O que me marcou mais nessa caminhada foi conhecer lugares e pessoas. Andei por esse Piauí em caravana, por meio do Projeto Cara Alegre do Piauí. Sempre aproveitei as oportunidades. Antes eu era só a professora oficineira de cordel, com apenas um cordel publicado, que era a adaptação do Romeu e Julieta (2001). Tive que estudar muito para aprender a fazer uma narrativa de cordel com técnica e poesia. Lembro quando ganhei o prêmio do Servidor Público do Piauí em 2005, com o poema em cordel ‘Cidadania Ferida’. Comecei a ganhar força e acreditar em mim como cordelista. Depois ampliei este poema e fiz a narrativa de Maria das Tiras, uma personagem que mora nas ruas de Teresina, sem documentos, dormia ao relento, com seus direitos negados e invisibilizada pelo povo e pelo sistema público. Momento que comecei a definir minha temática sobre as vozes femininas. Hoje tenho 25 narrativas, em todas elas, a mulher se faz presente, mesmo representada pela personagem Coruja, lá no cordel do Cajueiro-Rei, um cordel feito para as crianças.”

O reconhecimento que fortaleceu a literatura popular

Embora nunca tivesse planejado integrar academias de letras, Maria Ilza afirma que essas instituições fortaleceram sua atuação como escritora.

“Fazer parte de uma Academia Literária não era a minha meta, mas se tornou uma conquista por conta da minha dedicação e compromisso com a minha escrita. Descobri que ocupar uma cadeira numa Academia de Letras e Literatura valida e fortalece o autor no contexto literário. Isso é muito bom para sair do anonimato. Sou uma sonhadora bem otimista, embora enfrentando infortúnios e preconceitos, porque a literatura de cordel ainda sofre por isso. Eu sou persistente, porque cordel é resistência, é memória, é identidade, é poesia, é literatura, é arte e cultura.”

Ela destaca ainda que a participação constante em eventos literários tem sido fundamental para aproximar sua produção do público. “Hoje me faço presente nas principais feiras literárias do Piauí e do Ceará. É nesses espaços que o cordel dialoga diretamente com leitores, pesquisadores, estudantes e outros escritores. São momentos de troca, aprendizado e fortalecimento da cultura popular”, afirma.

Um legado para as futuras gerações

Ao concluir a entrevista, a cordelista resume o que considera sua maior realização.

“O que mais me emociona é quando escuto uma criança falar que já leu meus cordéis. Nesse mundo do cordel, o que eu mais gosto é da convivência, poder ouvir as pessoas é gratificante. Espero que minhas histórias sejam lidas e que provoquem alguma transformação nesse mundo. Principalmente no nosso meio ambiente. Que as mulheres ganhem mais voz e aprendam a se livrarem dos agressores.”

Após 25 anos dedicados ao cordel, Maria Ilza Bezerra permanece escrevendo, pesquisando e formando leitores. Presença constante nas maiores feiras literárias do Piauí e do Ceará, reconhecida por academias de letras e homenageada em importantes eventos culturais, ela segue transformando a poesia popular em instrumento de educação, preservação da memória, valorização da identidade nordestina e fortalecimento da voz feminina. Sua trajetória demonstra que a literatura de cordel continua viva, reinventando-se sem perder suas raízes e transformando versos em resistência, cultura e esperança.

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