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Entre 2 Poderes: filme independente transforma violência, preconceito e escolhas em uma história de resistência

Entre 2 Poderes: filme independente transforma violência, preconceito e escolhas em uma história de resistência

Jucelma Sales
Por: Jucelma Sales Fonte: Ascom
14/08/2026 às 09h29
Entre 2 Poderes: filme independente transforma violência, preconceito e escolhas em uma história de resistência
(Foto: Reprodução)

Uma troca de bebês em uma maternidade dá início a uma história marcada por segredos, violência, preconceito, desigualdade e, sobretudo, escolhas. É a partir desse ponto que nasce Entre 2 Poderes, longa-metragem independente produzido pela Soul Arte, em Florianópolis (SC), que coloca duas famílias de realidades completamente diferentes diante de uma verdade capaz de transformar seus destinos.

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No centro da trama está Kelly, criada como Junior no morro, em meio ao tráfico, à violência e às regras impostas pela comunidade. Ao assumir sua identidade como mulher trans, ela encontra nos estudos uma possibilidade de romper com o ambiente em que cresceu e passa a perseguir um sonho considerado improvável para muitos: tornar-se juíza.

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Do outro lado está uma jovem criada em uma família influente, cercada por privilégios e oportunidades. Quando o segredo da troca de bebês vem à tona, as duas famílias são obrigadas a confrontar não apenas o passado, mas também as diferenças sociais que sempre separaram suas trajetórias.

Enquanto o drama familiar se desenvolve, o morro também vive uma disputa pelo controle do território entre Cascudo e Cicatriz. A narrativa passa, assim, por dois mundos que parecem opostos, mas que acabam inevitavelmente conectados.

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Mais do que contar uma história sobre crime e justiça, Entre 2 Poderes pretende provocar uma reflexão sobre aquilo que determina os caminhos de uma pessoa: o lugar onde nasce, a família que a cria, as oportunidades que recebe ou as escolhas que faz.

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Uma história sobre resistência

A equipe do filme afirma que a decisão de abordar temas como machismo, homofobia, violência doméstica e preconceito nasceu do desejo de colocar no centro do cinema histórias que muitas vezes permanecem silenciadas.

Kelly não é construída apenas como uma vítima das circunstâncias. Sua trajetória representa resistência. Mesmo diante de um ambiente marcado pela violência e pela exclusão, ela escolhe estudar e construir outro futuro para si.

É justamente nessa transformação que o filme pretende encontrar sua força: tirar esses assuntos das estatísticas e das manchetes e apresentá-los por meio de personagens com rosto, sentimentos, conflitos e sonhos.

A pergunta que atravessa a proposta é simples, mas incômoda: e se, por alguns instantes, o espectador fosse obrigado a enxergar o mundo a partir do lugar de outra pessoa?

Um elenco formado por diferentes regiões do Brasil

O elenco reúne profissionais de Santa Catarina, Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal. Para a Soul Arte, essa diversidade de origens é também uma forma de enriquecer a produção, reunindo sotaques, experiências e diferentes perspectivas dentro da mesma história.

A preparação dos atores foi conduzida pela diretora Rayssa de Castro, com testes e conversas voltados principalmente à capacidade de cada intérprete de sustentar a intensidade emocional dos personagens.

Entre os nomes do projeto está o ator italiano-brasileiro Nicola Siri, que interpreta Cicatriz. A participação surgiu por indicação da maquiadora premiada Nancy Marignac, que acompanha o projeto desde seus primeiros momentos.

Também integra a produção Gilsinho da Maia, que participou das preparações para as cenas de ação e contribuiu como ator.

No núcleo principal estão Jaillson Fernandes, Khayla Martins, Adriana Lins, Otávia Cordazzo e Alice Amaral. Segundo a equipe, o elenco não chegou ao projeto apenas pela oportunidade profissional, mas também por acreditar na mensagem que a obra pretende transmitir.

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Realismo sem romantizar a violência

A direção de Entre 2 Poderes é assinada por Rayssa de Castro, que construiu o trabalho a partir de pesquisa, preparação e contato direto com os espaços onde a história foi filmada.

Uma das principais referências para a produção foi a própria comunidade do morro do Mocotó, em Florianópolis. Moradores participaram das conversas e contribuíram com experiências que ajudaram a equipe a compreender melhor aquela realidade.

As cenas de ação também passaram por preparação específica com o Instituto Pena Máxima, Jovani Boch - AK e Gilsinho da Maia.

A preocupação, segundo a equipe, foi buscar realismo sem transformar a violência em espetáculo ou romantizá-la. O objetivo era construir uma narrativa responsável, na qual os conflitos tivessem consequências e fossem tratados dentro da complexidade social que os envolve.

Florianópolis como personagem

As filmagens foram realizadas em Florianópolis, utilizando principalmente locações reais. A proposta foi fugir de uma representação artificial e fazer com que ruas, casas, becos, comunidades e pontos conhecidos da cidade participassem da construção da história.

A primeira diária já nasceu cercada de expectativa. Uma perseguição gravada na avenida Beira-Mar Norte chamou a atenção e fez com que o projeto ganhasse visibilidade rapidamente entre os moradores.

Mas foi no morro do Mocotó que a equipe encontrou uma das experiências mais significativas dos bastidores.

Além de servir como cenário, a comunidade passou a fazer parte da própria construção do filme. A aproximação com o audiovisual também possibilitou o surgimento de novos talentos e despertou o interesse de pessoas que até então não tinham contato direto com uma produção cinematográfica.

A escolha das locações reforça uma das principais características do projeto: mostrar Florianópolis não apenas por suas paisagens conhecidas, mas também por suas contradições, desigualdades, belezas e diferentes realidades.

O julgamento que emocionou a equipe

Entre tantas cenas gravadas, uma delas ganhou um significado especial para quem acompanhou a produção: o julgamento final.

 

Depois de toda a trajetória enfrentada por Kelly, vê-la realizando seu primeiro julgamento como juíza representou, para a equipe, a materialização de uma transformação construída ao longo de toda a narrativa.

A sequência é apontada como um dos momentos mais emocionantes do longa justamente porque concentra o resultado de uma caminhada marcada por obstáculos, preconceito e determinação.

A personagem que precisou lutar contra as expectativas impostas a ela chega, finalmente, ao lugar que escolheu ocupar.

Uma produtora independente que aposta na descentralização

À frente da produção está a Soul Arte, produtora e escola sediada em Florianópolis e liderada por Morgana Zilli e Carolina Duarte.

A empresa atua com cursos, workshops e produções independentes e tem entre seus objetivos fomentar o mercado audiovisual catarinense e contribuir para a descentralização da produção cinematográfica brasileira.

A proposta é ampliar as possibilidades para profissionais que vivem fora do tradicional eixo Rio-São Paulo, criando conexões entre artistas de diferentes regiões e fortalecendo Santa Catarina como espaço de produção cultural.

Entre 2 Poderes nasce justamente dentro dessa proposta de construção coletiva.

Produzir cinema independente é também uma luta

Como acontece com grande parte das produções independentes, o principal obstáculo enfrentado pelo projeto foi financeiro.

Com recursos limitados, a equipe precisou trabalhar com uma estrutura reduzida e encontrar soluções criativas para transformar as ideias do roteiro em imagens.

Para a produção, esse cenário reforça a importância do apoio de empresas e instituições a projetos culturais, especialmente aqueles realizados fora dos grandes centros.

Ainda assim, as limitações acabaram se transformando em parte da identidade da obra. A equipe destaca a participação fundamental de profissionais como Rayssa de Castro, Nancy Marignac, Chico Caprario, Heros Cegatta, Arthur Thiesen e Valdir André.

O resultado, segundo os envolvidos, só foi possível porque diferentes profissionais decidiram acreditar no projeto e contribuir para que ele saísse do papel.

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Próxima parada: os festivais

As filmagens de Entre 2 Poderes já foram concluídas. O longa agora entra na etapa de pós-produção, com previsão de lançamento para o início de 2027.

A estratégia inicial é inscrever o filme em festivais de cinema. Depois desse circuito, a equipe pretende buscar possibilidades de exibição em plataformas de streaming, cinemas de rua e centros culturais.

O caminho escolhido também reforça a identidade independente do projeto: antes de chegar ao grande público, a produção pretende construir sua trajetória dentro do circuito cinematográfico e encontrar espaços que valorizem obras autorais e produzidas fora dos grandes centros.

Entre o crime e a lei, existe a humanidade

No fim, Entre 2 Poderes não pretende oferecer respostas fáceis.

A história fala sobre duas famílias, mas também sobre pertencimento. Fala de violência, mas também sobre resistência. Fala de preconceito, mas principalmente sobre a possibilidade de escolher um caminho diferente daquele que parecia estar determinado desde o nascimento.

Kelly representa justamente essa ruptura.

Entre o crime e a lei, entre o ódio e o amor, entre aquilo que a sociedade espera e aquilo que cada pessoa deseja ser, o filme procura apresentar uma terceira possibilidade: a humanidade.

E é com essa provocação que a produção pretende deixar o espectador diante de uma pergunta que permanece mesmo depois dos créditos: de que lado estamos quando o silêncio acontece?

 

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