
Após fazer sucesso no cinema com os filmes “Deixa a Chuva Cair” e “A Irmandade”, o rapper piauiense Preto Kedé, do grupo A Irmandade, também começa a aparecer para o meio acadêmico. Em seu novo lançamento, a música “Teoria Cotidiana Nordestina”, Kedé faz parceria com Carlos Mossoró, pesquisador com doutorado na renomada Universidade de Coimbra, de Portugal. Mossoró (nome da cidade do artista no RN) também atua como rapper e slammer. A produção do instrumental dessa música é do mexicano DJ Pisto Rey, que também triunfa no meio acadêmico, com mestrado na Universidade Autônoma do México.
Em seu doutorado, Carlos pesquisou sobre o rap como forma de ativismo político em países de língua oficial portuguesa. Ele esteve em Teresina no mês de janeiro, quando gravou com Preto Kedé. Na estadia na capital piauiense, procurou contato com o grupo A Irmandade devido à repercussão dos filmes “Deixa a Chuva Cair” e “A Irmandade”. A ideia era conhecer o ativismo político realizado pelo grupo piauiense.
Na visita, o pesquisador presenciou uma ação social liderada pelo membro do coletivo A Irmandade, Preto Kedé, que envolveu distribuição de um sopão, além de conversa e prática de rap com crianças. Além disso, visitou uma batalha de rap com Preto Kedé. Logo depois, surgiu a ideia de gravarem juntos uma música, já que o pesquisador também é artista atuante no hip-hop.
A música conta com dois tempos distintos e por isso dois instrumentais “beats”, para representar essa quebra de tempos entre a visão de Mossoró e de Kedé. Ambos os “beats” foram produzidos pelo mexicano DJ Pisto Rey. Na primeira parte, Carlos Mossoró denuncia as restrições de liberdade de expressão para ativistas, mostra a importância educativa de eventos culturais como poetry slam e batalhas do conhecimento, como também denuncia a própria contradição do meio acadêmico em não buscar conhecer a realidade das periferias, apesar de criar várias análises teóricas sobre as próprias periferias. Isso justifica, em partes, o título “Teoria Cotidiana Nordestina”.
A outra parte, cantada por Preto Kedé, complementa a justificativa do título da música. Trata-se de uma visão semelhante a do pesquisador, mas narrada por quem vive o cotidiano das periferias, no caso o artista Preto Kedé. O rapper piauiense fala do descrédito dado às pessoas que abordam a realidade das periferias apenas através de meios como a internet, a universidade ou a televisão, mas não pensam em soluções reais para as periferias ou sequer buscam conhecer o cotidiano desses locais, se prendendo a estereótipos. Desse modo, denuncia a realidade difícil das periferias e clama por soluções. Na parte cantada por Kedé, a imagem de ambos os artistas tem como fundo o sopão distribuído dias antes pelo grupo A Irmandade.